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Para as minhas mulheres:

mais de uma vez experimentei tão grande sofrimento ao olhar para mulheres que ajudei, na época e que enquanto eu caminhava para minha fogueira, guilhotina ou forca, nada fizeram. Elas apenas me olhavam. Em alguns momentos gritei e chorei, os homens deduziam que meus gritos eram de arrependimento ou desespero, mas eram puramente da dor, de saber que eu precisava nas entranhas de ao menos um abraço das minhas irmãs e ao mesmo tempo entendia que elas me estendessem a mão, teriam o mesmo fim que eu. em outros momentos, me mantive altiva, repetindo para mim mesma que era forte e que me bastava, ciente que se elas estendessem a mão, seriam decapitadas junto comigo, ressentida de me sentir tão sozinha, mesmo que tenha escolhido ajuda-las sabendo dos termos e dos riscos. Ajuda-las a sobreviver aos seus homens. A curar com a bruxaria as feridas do corpo e da alma. e por essa escolha, fui privada da maternidade tantas vezes que terminei por renuncia-la. Uma renuncia tão profunda que nest...

quinze e quarenta e oito da tarde de domingo.

Calíope tenta se manter aquecida, entre minhas pernas debaixo do edredom azul. Azul porque gosto de imaginar que estou me cobrindo de mar, edredom, mosquiteiro, lençóis todos em azul. Assisto um série onde muitas cenas são de orquestra tocando. uma, duas lagrimas escorrem, não apenas bela ousadia da música, mas a beleza da cena. Uma mulher de moletom, sozinha em casa, num dia chuvoso, com o coração aquecido, fazendo exatamente o que ela tem vontade de fazer neste momento. As vezes num intervalo de silêncio, olha em volta pensando se lhe falta algo. Não.. Talvez falte um copo de água. Você já experimentou a sensação de estar simplesmente feliz? Quando tiro o fone, ainda escuto uma conversa ao longe e os passarinhos. O dia está lá fora, Alana... a felicidade, aqui dentro.

Pandemia.

Lembra do tempo de escola? Você dizia que sua meta de vida era estar nos livros de história? Pois, tem alguma coisa que seja realmente impossível?! Infelizmente não pelo melhor motivo, mas naquele tempo você ainda não tinha noção do "da mais elevada maneira né?" Estamos a 3 meses numa pandemia mundial e uma doença chamada corona virus, o mundo inteiro parou. fechou as portas, colocou todo mundo dentro de suas casas. Decidimos passar por isso em casa, no vale do Capão. Quando te digo que decidimos, é porque você estava em Salvador visitando sua mãe no início deste processo e resolveu voltar. Hoje a saudade apertou a garganta, hoje mais uma vez você percebeu que está por sua conta. impermanência e impecabilidade, duas palavras que você está aceitando e inserindo na sua vida. O passado não faz mais falta, apenas deixa um gostinho de saudades. Você tem tantos abraços pendentes. Tantos. Eu queria te lembrar o quanto estou grata, teu coração demorou para entender que é ...

Tem tempo que a gente não se encontra.

Faz tempo que não tenho um papo reto com você. A nossa caminhada é longa e eu tenho descoberto um amor cada vez mais crescente por esse teu sorriso!! Então vou te atualizar do que aconteceu, porque a ultima vez que conversamos faz mais de um ano, foi em 2018 e a gente já está em 2020. Eu to sentada na varanda da casa que moro aqui no Vale do Capão, acredita? Você morando no Capão?! hahaha se eu te dissesse isso há 1 ano e meio atrás, você iria sorrir gentilmente, dizer que ama no vale, que se sente muito bem lá, mas que não moraria. Tem um gato enorme deitado na minha frente, que apelidei de Tutu, nome do nosso avô. Mas calma, vamos voltar um pouco. Você viveu experiências incríveis no ultimo ano, tomou coragem, saiu do emprego formal, se jogou na vida que acreditava. Lógico que a vida muda, mas a gente nem sempre muda na mesma intensidade, então até hoje você me repete uns padrões que me tiram do sério. Bancamos muitas mudanças juntas, experimentamos a vulnerabilidade de co...

"Me mostra a liberdade de viver no seu amor" - À minha mãe.

"Me mostra a liberdade de viver no seu amor" - À minha mãe. Eu fiz descobertas incríveis em 2018. Eu renasci meses antes de completar 30 anos. Consigo em muito momentos ver além do que os olhos físicos mostram e decidi acreditar em mim e viver de acordo com isso. Temia no fundo que esse caminho me afastaria de você. Desejei várias vezes que você saltasse no ar e apenas confiasse em mim. Eu confio. Quando olho para trás e te vejo, me pergunto se precisa ser desta forma. Com essa sensação de te soltar. Por que você simplesmente não confia em mim? essa sensação as vezes me faz querer percorrer todo caminho de volta, quem sabe só para poder te punir e dizer "tá vendo? você quis tanto estar certa sobre tudo, que me fez desistir de mim, de tudo" confesso que isso passa com uma fração de segundo pelos meus pensamentos. eu te ressinto? por que ainda? escrevo isso sem o peso, que teria a um ano atrás. eu te amo profundamente. Você é a mulher da minha vida. eu q...

Cachorros não comem poesia.

Aqui em casa, cachorros não comem poesia. Deixe cair qualquer conta, qualquer lista enorme de coisas dispensáveis de se comprar no mercado, qualquer bilhete de cobranças, ele vai lá e tritura, sem engolir. Tritura tudo miudinho e espalha pela sala toda, depois senta e me olha como quem rir de uma piada. -"é isto aqui que você julga importante? ha, ha, ha, pois agora não resta mais nada, nada importa" Outro dia achei uma poesia antiga e deixei em cima da mesa, o vento levou ao chão e lá ficou por um tempo. Quando acordo, está ele deitadinho olhando para o papel intacto como quem pede: -"lê para mim" *Estava frio, você me beijou. Existia uma urgência no beijo, no abraço. Lembro de pensar que eu queria você me beijando com mais calma, como se tivéssemos todo tempo do mundo.* Após a leitura, pensei que poesia é feita por trouxas, para trouxas num disfarce sublime para cenas mundanas da vida cotidiana. Mas o cachorro voltou a deitar pensativo, era isso que im...

Nona sinfonia - Ode a alegria.

Há uma ano atrás, aproximadamente, logo após os festejos de são joão, me libertei. Sedenta de vida, como quem foge ainda com os grilhões nos punhos e tornozelos, procurei um canto e continuei a me comportar como uma prisioneira. Aos poucos alguns encontros foram me conduzindo ao meu espaço de liberdade. Provei a luz do sol, provei o voo para o outro lado do oceano, provei o seu, e o teu beijo. Livre. Livre? os grilhões pesavam, limita o movimento, contaminavam ainda o ar, com o cheiro tão conhecido de ferrugem.  Eu mudei de forma algumas vezes, e um ano depois, após os festejos de são joão, levei meus grilhões para o alto de um morro, na chapada diamantina, era tão maravilhoso, que eu queria voar. Veja bem, voar, não mais pular. Apesar do peso no peito o desejo de morte tinha ido embora. Voltei para casa, não sei se a caminhada, o suor, ou a aflição infecionaram minhas correntes e me recolhi, me anestesiei, me escondi de novo...e foi definhando....inflamada...indo...indo.....