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caixinha de pandora

no sorriso, no bom dia, no café... ela vivia e chorava, chorava e vivia. as lágrimas apagam o caminho atras dos passos. não era um braço, era um abraço que ela perdia, e como doía. Era o resto, a ponta solta dela que diluía, ela chorava, mas sorria. um outro braço num abraço amigo lhe entendia, mas nada dizia, porque palavras não são cirurgias. e os cortes não sangravam, cauterizados estavam , mas ela sentia. pegou a caixinha de madeira que cabia nas mãos, mas o que continha enchia dois mundos. Recolheu a água dos olhos e empurrou mais pro fundo da caixa, será que cabia? Numa dança desegonçada segurava a caixa pesada e a fita na perna do pássaro..voava.
"eu não quero ver você cuspindo ódio para sanar a dor" todo o brilho, a força, a alegria corriam agora perigosamente para um único ponto. A energia deliciosa que guiava os movimentos agora estava desequilibrada, concentrada num abraço louco e dolorosamente apertado. Ela andava...mas seu andar era firme e vazio. a sensação suave estava cercada de sombras, gritava e chorava pedindo para ser solta...não existia mais força nos cantos do corpo, estava tensa, mal. a vida vibrava nas palpebras, lágrimas que não caiam. Tudo de bom ameaçava transbordar para fora e perder-se nos prédios cinzas. queria continuar inteira.

peito aberto

o coração estava esguichando sangue pra todo lado. Nada do habitual, pegar da veia, jogar na artéria...ele queria arte bombeando mais que vida. fechou o olhos enquanto caminhava, estava doendo existir no momento, mas o vento no rosto era tão bom. Queria querer o tinha, queria tanto querer, esfregava as mãos numa oração febril,tanto tanto que machucava. o tempo vagava sem ordem na mente, então lembrava do sorriso e se perdia. estava tonta. besta. boba. cansada também.. então dormiu.
uma parede branca. um relógio branco na parede branca. uma menina sentada na cadeira de madeira escura. um boca de fogão ligada, embaixo de uma panela de vidro. dentro da panela a água borbulha. o ponteiro 'tac', a cabeça da menina "que demora essa água para ferver" tac, "o céu da minha janela não tem estrelas" tac, "eu estou cansada" tac, "já passa da meia noite, quero dormir" tac, "meus olhos ardem" tac, "alguém me abrace por favor" tac, "alguém me veja aqui escorada na cadeira e me abrace" tac, "alguém por favor" tac, "estou sozinha" tac, "ninguém virá" tac, "sozinha" tac, a água borbulha, e a garganta da menina dói, inútil, o choro sobe incontrolável. ela não desaba, ela não grita. tac, a lágrima escorre com suavidade de uma gota que escapa de um pequeno buraco, numa imensa represa. tac, ela já viu uma represa, você já? mais uma lágrima. Ela enxuga a primeira e a se...

A mamãe é só mamãe, papai?

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o drama é aquela calda do bolo que ficou demais e fica escorrendo pelas bordas, esteticamente destroi a beleza do bolo, mas é uma delícia lambuzar-se nas sobras. eis o Drama. A mamãe é só mamãe, papai? A menininha sentada no meio da sala, rodeada de papeis com riscos incompreensíveis, empenhava-se em desenhar uma flor. Papai, ainda não tinha chegado e Dada não aparecera o dia todo. Estava em casa com a mamãe desde que voltara da escolinha e a tarde que prometia ser maravilhosa estava acabando do mesmo jeito que começou, mamãe no quarto e a televisão tomando conta da menininha. Ela já não aguentava mais fazer de tudo na sala, então decidiu que faria nada no quarto da mamãe. bateu na porta com a certeza que mamãe estava cansanda e só a deixaria ficar se ela prometesse ficar bem quietinha. Imagine qual não foi a sua surpresa quando mamãe abriu a porta incrivelmente linda.Agora sim, ela estava entendendo,todas as noites esperava ver um céu estrelado e só via pouquinhas estrelas! Mamãe tinh...
A menininha de um lado segurava a mão da mãe, do outro um balão flutuante verde vivo grande, quase que como um transporte para o céu. Momentos antes ela ria com os bonecos piratas do teatro de fantoches, num desses parques que estão correndo risco de extinção. Estava imersa nas aventuras dos piratas e príncipes quando avistou o balão. Não, não era apenas um balão, ele rodopiava no ar preso as mãos de um sujeitinho simpático, com jeito de papai noel, sem a roupa vermelha. Barbas grandes e brancas, uma camisa branca em contraste com a pele negra, e uma bermuda que mais parecia um jardim. Lá estava ele segurando o balão dos sonhos, o balão que a suspenderia e flutuaria para lugares mágicos, o passaporte para uma aventura! Ansiosa pediu cutucou a mãe e apontou para o balão: Mamãe, mamãe...me dá aquilo? e quando finalmente o tinha em mãos, segurou firme a mão da mãe, esperando a hora da decolagem. Ela já estava imaginando o porque que não estava voando ainda e começava a desconfiar que sua ...

Ninfas da água.

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Um velho robusto canta num ritmo monótono anunciando o fim de tarde As mulheres da túnica amarela trazem a carne sangrenta nos ombros e pouco a pouco depositam-a na grande pedra, os homens preparam o fogo. A velha, a mãe e a menina estão vestidas de branco, pisam na carne tingindo a barra da saia de vermelho. Os pequeninos aguardam com mãos ansiosas e quietas o ultimo raio de sol se afogar no horizonte. Ouve-se apenas o canto do velho. "ooooooouoooooeeeeeeeoooooo" o sol se agofa por inteiro, o velho cala, começa as batidas ritmadas intensas. A menina cambaleia de tempos em tempos e é aparada pela mãe. A lua ilumina o altar onde a menina tenta se manter em pé, as mulheres começam a gritar. Lamentos, angústias, raivas e frustrações, gritam enquanto esmurram a carne. exaustas se calam compartilham o chá turvo da cumbuca e dançam. Tambores, tambores, tambores, dança, canto, grito, tambores... a mãe treme, ela sabe que não pode mais segurar a filha, finalmente ela cede e desfalece...